terça-feira, 8 de setembro de 2026

A Rota das Cartas: Da Ásia Central à Europa Modernista

A história das cartas de jogar é uma jornada fascinante de trocas culturais e inovações técnicas. Diferente de sistemas adivinhatórios desenhados com intenções místicas desde a sua origem, o baralho comum nasceu estritamente como um jogo de entretenimento urbano.

O surgimento no Oriente (Século IX)

A origem documental do jogo de cartas remonta à China da Dinastia Tang (618–907). O primeiro texto registrado sobre o assunto é o Yezi Gexi ("Jogo das Folhas"), escrito pelo autor Su E por volta de 868. Inicialmente impressas em blocos de madeira sobre papel, as cartas chinesas derivavam de notas promissórias e do próprio papel-moeda da época, correlacionando diretamente a ideia de apostar quantias ao manuseio das impressões.

A síntese Mameluca (Século XIV)

Através da Rota da Seda e das conexões do Império Mongol, a ideia viajou para a Pérsia e chegou ao Sultanato Mameluco do Cairo, no Egito. O baralho mameluco (cujo exemplar mais famoso do século XV está preservado no Museu Topkapi, em Istambul) já estruturava a base moderna de 52 cartas divididas em 4 naipes:

  • Tûmân (Taças)

  • Darâhim (Moedas)

  • Suyûf (Espadas)

  • Jawkân (Tacos de Polo)

Devido às aniconismo islâmico — a proibição religiosa da representação figurativa da imagem humana —, as cartas da corte mameluca não mostravam pessoas. Em vez disso, traziam textos caligráficos e títulos de hierarquia como Malik (Rei), Nā'ib Malik (Vice-Rei) e Thānī Nā'ib (Segundo Vice-Rei).

O desembarque na Europa e os naipes latinos (Década de 1370)

As cartas chegaram aos portos comerciais da Itália e da Espanha na década de 1370, mencionadas em documentos históricos sob o nome de naibbe (do árabe nā'ib).

Os europeus adotaram a estrutura mameluca, convertendo os Tacos de Polo em Bastões (Paus) e adaptando os desenhos para o estilo ocidental. Esse conjunto deu origem aos naipes latinos:

  • Copas (Taças)

  • Ouros (Moedas)

  • Espadas (Sabres)

  • Paus (Bastões)

Esses símbolos permanecem até hoje no baralho espanhol, na cartomancia italiana e serviram de estrutura para a criação dos Arcanos Menores do Tarot.

A revolução do baralho francês e a xilogravura (Século XV)

Por volta de 1480, artesãos franceses da região de Rouen e Lyon revolucionaram a fabricação. Os desenhos latinos eram complexos e exigiam pintura manual ou gravações detalhadas. Os franceses simplificaram os símbolos geométrica e cromaticamente, utilizando stencils para pintar rapidamente em duas cores (vermelho e preto):

  • ♥ Cœurs (Copas/Corações)

  • ♦ Carreaux (Ouros/Losangos)

  • ♣ Trèfles (Paus/Trevos)

  • ♠ Piques (Espadas/PONTAS de lança)

Essa facilidade industrial barateou a produção em massa e tornou o padrão francês o modelo dominante no mundo todo.

A atribuição de identidades às figuras reais

Ao contrário dos mamelucos, a Europa reintroduziu imagens humanas nas cartas reais. No padrão francês conhecido como Portrait de Paris, cada figura da corte recebeu o nome de um personagem histórico, mitológico ou bíblico:

FiguraCopasOurosEspadasPaus
ReiCarlos MagnoJúlio CésarRei DaviAlexandre, o Grande
DamaJudite (bíblica)RaquelAtena (Minerva)Argine (anagrama de Regina)
ValeteLa Hire (companheiro de Joana d'Arc)Hétor de TroiaOgier, o DinamarquêsLancelot

Do entretenimento à linguagem oracular

Embora criado exclusivamente para jogos de mesa, o baralho comum começou a ser associado à adivinhação popular no final do século XVIII, principalmente na Europa Central e na França. Cartomantes perceberam que a estrutura numérica (do Ás ao 10) aliada aos 4 naipes oferecia um sistema aritmético e simbólico preciso para mapear situações do cotidiano, finanças, relacionamentos e conflitos.

1. Livros e Estudos Acadêmicos Centrais

  • DUMMETT, Michael. The Game of Tarot: From Ferrara to Salt Lake City. Londres: Duckworth, 1980.

    Relevância: Escrito por um dos maiores historiadores de jogos do século XX e professor da Universidade de Oxford. Esta obra é a Bíblia da história dos jogos de cartas. Dummett documenta rigorosamente a transição do baralho mameluco para a Europa no século XIV e demonstra formalmente que as cartas de jogar vieram antes do Tarot.

  • PARLETT, David. The Oxford History of Board Games. Oxford: Oxford University Press, 1999. (E o seu trabalho de documentação em The History of Playing Cards).

    Relevância: Historador britânico de jogos de mesa. Registra a origem chinesa durante a Dinastia Tang, a evolução das cartas de papel-moeda na China (yezi gexi) e a disseminação pelas rotas comerciais asiáticas.

  • DEPULIS, Thierry. Tarot, jeu et magie. Paris: Bibliothèque Nationale de France, 1984.

    Relevância: Obra do curador da Biblioteca Nacional da França. Detalha a história do baralho francês (Portrait de Paris), a simplificação para os 4 naipes franceses (Cœurs, Carreaux, Trèfles, Piques) e a atribuição dos nomes históricos às figuras da corte (Rei Davi, Alexandre, Judite, etc.).

  • MAYER, L. A. Mamluk Playing Cards. (Editado por R. Ettinghausen e O. Kurz). Leiden: E. J. Brill, 1971.

    Relevância: O estudo definitivo sobre o famoso Baralho Mameluco de Topkapi (descoberto no Museu do Palácio de Topkapi, em Istambul, em 1939). O livro analisa as inscrições em árabe, a estrutura dos naipes (tûmân, darâhim, suyûf, jawkân) e as hierarquias das cartas sem representação humana.

2. Documentos Históricos Primários Citados

  1. Primeira menção ao jogo de cartas na China (868 d.C.):

    • Fonte: Yezi Gexi ("Jogo das Folhas"), escrito pelo autor Su E durante a Dinastia Tang, registrando a princesa Tongchang jogando cartas de papel com membros da família do marido.

  2. Primeiro registro documental da chegada à Europa (1377):

    • Fonte: Tractatus de moribus et disciplina humanae conversationis, escrito pelo frei dominicano John de Rheinfelden, na Suíça. Ele descreve a chegada do jogo no ano de 1377, chamando-o de um jogo de cartas (ludus cartarum) recém-chegado e detalhando o sistema de 52 cartas com 4 naipes e figuras de reis.

  3. Registros de proibição urbana na Europa (Década de 1370):

    • Fontes: Os decretos municipais de Florença (1377), Espanha (Crônica de Pedro Ceballos, 1377) e Paris (1377), proibindo os cidadãos de jogarem naibbe (termo derivado do árabe nā'ib) em dias de trabalho.

3. Instituições e Acervos de Museus para Consulta

  • The International Playing-Card Society (IPCS): Sociedade internacional fundada em 1972 formada por historiadores e acadêmicos dedicada exclusivamente à pesquisa da história das cartas de jogar (publicam o periódico acadêmico The Playing-Card).

  • Palácio de Topkapi (Istambul, Turquia): Abriga o único exemplar quase completo do baralho Mameluco do século XV.

  • Bibliothèque Nationale de France - BNF (Paris): Guarda a maior coleção de matrizes de xilogravura e baralhos franceses antigos do século XV ao XVIII.

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